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Barbie | Margot Robbie e Ryan Gosling brilham em seus papéis



Por: Julia Rosenthal 


Esta quinta-feira (20) será responsável por protagonizar as estreias mais esperadas deste ano, com os filmes de Oppenheimer e Barbie. Logo, a obra da Warner Bros estrelada por Margot Robbie e sobre nossa querida e nostálgica boneca chegará nas telas dos cinemas mundiais e nacionais trazendo consigo muitas risadas e possíveis reflexões sobre nossa sociedade atual.


Deste modo, o longa irá nos contar como Barbie, acompanhada de Ken, se vê obrigada a deixar sua querida Barbielândia para viajar para o Mundo Real após começar a dar estranhos e peculiares “defeitos”. Assim, com o objetivo de fazer com que tudo volte a sua perfeita e normal vida, cabe a Barbie, agora em forma humana, encontrar a antiga criança que, ao brincar com sua boneca, criou uma forte e profunda conexão com ela. No entanto, logo após sua chegada ao Mundo Real, Barbie e Ken encontram-se em diferentes situações, com direito até a prisões, em que ambos percebem que a realidade não é tão igualitária para as mulheres como pensavam. Porém, os bonecos têm reações distintas quanto a sua descoberta, enquanto Barbie fica perplexa e amedrontada, Ken encontra uma oportunidade quanto ao mundo patriarcal. Sendo assim, na esperança de restaurar sua vida, a boneca decide voltar à bela e impecável Barbielândia com Glória e Sasha, a complicada dupla de mãe e filha. Entretanto, ao regressar para o que antes era sua casa, Barbie encontra seu mundo diferente de como o havia deixado.


Greta Gerwing (Adoráveis Mulheres) e Noah Baumbach (História de um Casamento) constroem um roteiro a base da sátira, fortes mensagens sociais e humor, em que por muitas vezes, faz com que a narrativa se perca tornando duvidoso o propósito do filme e criando personagens que se tornam vazios além de seus protagonistas. No entanto, os roteiristas obtém sucesso em deixar claro quanto a desconstrução do ideal estereotipado da Barbie, tornando o longa sobre a boneca não necessariamente uma produção para o público infantil, contando com profundas e identificáveis reflexões. Além disso, o filme utiliza muito do fator da comédia, trazendo piadas, ironias e até uma certa gozação sobre a empresa responsável pela produção da boneca na vida real, a Mattel. Infelizmente, tal uso do humor acaba se tornando em certos momentos um fator que não contribui tanto para a cena, auxiliando num desfoque da narrativa e nos deixando a impressão de até algo ligeiramente forçado.


Gerwing e Baumbach também arquitetam um enredo repleto de críticas, contemplações e interpretações sobre a realidade do mundo em que vivemos, trazendo Barbie, Ken e todos os outros para dentro de complexas e profundas reflexões. No entanto, a produção aparenta se preocupar mais com a difusão de uma mensagem do que a construção do enredo em si, o mesmo se encaixando para o uso do humor, criando buracos e até personagens desnecessários ou confusos. Um belo exemplo disto é como as personagens Gloria (America Ferreira) e Sasha(Ariana Greenblatt), mãe e filha, são apresentadas para o público, em que claramente há uma complicação na relação que seria usado como uma das justificativas de Gloria estar tão triste e, por consequência, transmitir tais sentimentos confusos para sua Barbie(Margot Robbie).

Entretanto, essa relação na mesma rapidez que nos é apresentada, também é resolvida, deixando pequenos pontos de interrogação em nossa cabeça quanto a como algo tão embaraçado se resolveu apenas com uma ida a Barbielândia. Mesmo que ambas se tornem personagens pouco necessários para o longa, há um momento de força que traz comoção para o público e, principalmente, as mulheres. Ao realizar um monólogo pra lá de verdadeiro quanto a nossa sociedade, America Ferrera proporciona um pequeno momento de comoção ao dizer palavras tão sinceras e reais, que trazem a sensação de ser a atriz discursando e não apenas sua personagem. Sendo assim, o roteiro ganha grandes buracos, como ações sem as mínimas explicações ou contextos básicos e histórias secundárias que fazem com que se torne com isso rasas e retire a sensação de fluidez do enredo, além de criar uma dependência do uso da metalinguagem para que funcione.


Entrando para o time de furos do roteiro, a própria representação dos executivos da Mattel, mesmo que seja propositalmente debochada, vem a ser boba e até um tanto confusa. Na mesma velocidade em que aparecem também somem, participando de cenas que aparentam ter sido apenas jogadas, um exemplo disto é quando vão para o mundo que agora é de Ken e acabam no meio da guerra dos Kens. Todavia, rapidamente também desaparecem, e apenas dão as caras depois que tudo foi resolvido, sem uma mínima explicação. Mesmo que o intuito era a própria Mattel também zombar sobre homens serem responsáveis de vender bonecas Barbies para garotinhas e dizerem entender o sentimento, eventualmente a mesma piada quando contada muitas vezes, perde a graça.


Há um instante no longa, já para a parte final, que esses mesmos executivos aceitam fazer uma nova Barbie, em que aparenta representar o verdadeiro propósito da empresa ao produzir um filme sobre a boneca, lucros. Sabe-se que desde a forte divulgação do longa, o número de bonecas Barbies vendidas ultrapassou metas, lucrando milhões de dólares. Desta forma, por motivos como este e também a própria cena de perseguição de carro, que por sinal pode ser considerada um dos momentos mais fracos do filme é, claramente, apenas um anúncio da Chevrolet, mesmo que Greta tente não deixá-la assim, a produção se torna muito comercial.


Além disso, a produção utiliza de um humor que ao mesmo tempo que pode ser interpretado como “bobo”, também se torna esperto e sagaz, muitas vezes acompanhado de uma crítica social. No entanto, mesmo que todos gostem de dar risos genuínos, a utilização da comédia eventualmente pode vir a dar a sensação de exagero, trazendo o sentimento de querer algo além daquilo. Logo, como mencionado brevemente acima, este não é um filme infantil, mesmo que possa vir a agradar a todas as faixas etárias. Trazendo um outro olhar para o mundo mágico e perfeito da Barbielândia e sua protagonista, o roteiro engana não só aqueles que pensam que este seria um filme tradicional de Barbie, mas também os que esperam algo grandioso, trazendo uma maior complexidade para a personagem e Ken.


Por mais que o roteiro possua falhas, a direção de Greta Gerwig é a criação de sua assinatura, sabendo espertamente quando direcionar a câmera para criar um momento cômico, como por exemplo com o próprio personagem Allan que em momento nenhum toma destaque, porém é capaz de tirar risadas mais sinceras do que as piadas prontas. A diretora soube conduzir bem uma produção muito prejudicada por seu roteiro, obtendo êxito na orientação de seus protagonistas. Ademais, Gerwing consegue aproveitar a concepção do “tosco”, tirando o senso negativo que temos do conceito. Um claro exemplo disto é como utiliza os efeitos especiais, propositalmente fracos sem que pareça algo forçado, trazendo a sensação da imaginação e da animação, justamente dentro de um mundo fictício como a Barbielândia.


Para além dos efeitos especiais, a direção de Greta combina perfeitamente com seus cenários junto a sua trilha sonora, composta por grandes nomes da indústria musical. Todo o mundo de Barbie é excepcional, sendo responsável por usar litros e litros de tinta rosa, não se torna algo desagradável para os olhos, trazendo uma sensação de diversão e justamente toda a magia da idealização. Este talvez, seja um dos pontos fortes do filme, por conseguir brevemente transportar o telespectador para o sentimento que possivelmente é o que mais o anseia ao assistir um filme como este, a nostalgia. Para aqueles que passaram suas infâncias se divertindo no imaginário com suas bonecas Barbies e Kens e suas centenas de casas, objetos e figurinos, quando Greta Gerwing te teletransporta para Barbielandia é encantador e glamouroso.


Contudo, tal delicioso sentimento se torna efêmero, principalmente por conta novamente, de seu roteiro, que introduz rapidamente todo o fascinante mundo da boneca junto a um número musical com direito a canção original da artista Dua Lipa, que também tem uma breve participação na produção, e logo depois já inicia uma jornada repleta de mensagens e piadas exageradas. Além de Dua, outros artistas como Lizzo, Nicki Minaj, Tame Impala, Khalid e Billie Eilish também carimbam sua participação. No entanto, por mais que o filme te faça esperar um cunho musical, ele rapidamente te decepciona com seu bad timing para certas músicas, mesmo que algumas como a de Lizzo, que sagazmente interage diretamente com o filme, e a de Tame Impala e Khalid ainda consigam serem salvas por pouco do esquecimento.


Como dito no próprio título desta crítica,Margot Robbie brilha em dar a vida a icônica boneca Barbie, conseguindo incorporá-la em todas as fases do filme, desde ao ideal da perfeição até o questionamento de seu propósito e a conscientização sobre ser uma mulher. Assim, comovendo, entretendo e excedendo as expectativas quanto a sua interpretação da personagem, a atriz consegue trazer o equilíbrio necessário entre o drama e a comédia. Difícil acreditar que talvez seja sua melhor performance, no entanto tal fato foi facilmente prejudicado devido a seu roteiro que, em certas situações, deixa sua personagem como secundária e rasa.


E claro, é impossível não destacar o desempenho de Ryan Gosling na interpretação de Ken, criando a sensação do personagem ter sido perfeitamente feito para o ator. Sendo responsável junto a Margot Robbie por serem o ponto mais forte do filme, Ryan sobressai durante toda a produção, dando vida a um Ken diferente do que estamos acostumados, com profundas questões pessoais. Deste modo, o ator cumpre impecavelmente seu papel, e muito provavelmente será uma indicação merecida para o Oscar 2024.


Quanto ao elenco restante, torna-se complicado opinar em algo tão pouco aparente. Acredita-se que devido ao grande marketing feito em cima da produção principalmente por conta do vasto elenco de talentos presentes no filme, o telespectador não receberá o que espera, grandes atuações ou personagens que te prendem e encantam. Com uma brincadeira com o próprio filme, a construção do elenco cria o sentimento que todos são Allan, o boneco único e esquecido que saiu de linha.


Entretanto, há ligeiras participações que conseguem captar a atenção de quem assiste momentaneamente, como a personagem de Kate McKninnon, a Barbie Estranha. Conhecida por sua longa participação no programa de comédia Saturday Night Live, a humorista e atriz é responsável por interpretar a mais cômica das Barbies, justamente a considerada estranha. Com tudo, a mesma impressão que temos com o restante do elenco, também fica presente na personagem de McKninnon, por ser uma caricatura ao extremo, que a atriz realiza sublimemente, em que se torna pouco explorada.


Como resultado, devido a diversos fatores, principalmente relacionados ao roteiro, Barbie se torna um filme um tanto decepcionante. É possível que tal sentimento tenha relação ao grande marketing e hype por trás da produção, que transmite uma expectativa que, por consequência, não é excedida. Mesmo com uma bela direção de Greta Gerwing, um extenso e brilhante figurino feito pela talentosa Jacqueline Durran (1917), que obtém grande sucesso na tentativa de humanizar todas as bonecas reais da Mattel, e a criativa concepção de cenário, principalmente de Barbielândia, de Rodrigo Prieto (O Segredo de Brokeback Mountain), a produção de milhões acaba por ter mais pontos enfraquecidos do que o contrário.


Produzido no dia 20/07

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